"Deixa estar que o que for pra ser, vigora."
(Maria Gadú)
"O namorado não dá conta. A terapeuta acha melhor lhe dar alta. O all star novo lhe machuca o tornozelo. E o cacho do cabelo teima em voltar. O ano demora a se despedir e as horas parecem não mais acabar. Sentada sozinha num café bonito, fica melancólica. Nostalgia de um tempo que ela ainda não viveu. Uma viagem sonhada com a nova amiga. Um cruzeiro com o namorado. Recordar o tempo em que se vivia apaixonado. Até que faz força, mas não consegue se lembrar de como é. Nem escrever consegue mais. As palavras que antes transbordavam em seu jardim hoje mal conseguem escrever seu nome. E o café desce amargo apesar do creme e do açúcar. Não sabe se o expresso está mais forte do que o costume ou se seu paladar desacostumou com tudo aquilo que era doce. É uma pena que por ora só consiga sentir o sabor do amargo. Imagina o que mais quereria se por acaso tivesse tudo o que sempre quis. Que novos brinquedos iria almejar? Que novos espaços iria preencher? Os vazios-lugares não são mais os mesmos. Os espaços-quereres também não. A realidade lhe faz reverência com um sorriso de canto de boca. A ironia é a vingança mais perversa. Não quer mais o livro que namorou por tanto tempo. Anda com medo de ser assaltada na rua. Passou a ler jornal todos os dias. Tomou um porre de abalar as madrugadas. Enquanto isso, espera o namorado numa lanchonete ampla e fresca. Observa as poucas pessoas que compõem o cenário. Queria estar em outro lugar, mas a visão turva a impede de ver um palmo à sua frente. Se pelo menos soubesse o nome certo da sua rua. Porque no infinito fundo de seus dias, desconfia que descobrir onde se está já seria meio caminho andado para se chegar exatamente aonde se quer."
(.Espera. 29/12/2009. 17:48h.)
