terça-feira, 29 de dezembro de 2009



"Deixa estar que o que for pra ser, vigora."
(Maria Gadú)

"O namorado não dá conta. A terapeuta acha melhor lhe dar alta. O all star novo lhe machuca o tornozelo. E o cacho do cabelo teima em voltar. O ano demora a se despedir e as horas parecem não mais acabar. Sentada sozinha num café bonito, fica melancólica. Nostalgia de um tempo que ela ainda não viveu. Uma viagem sonhada com a nova amiga. Um cruzeiro com o namorado. Recordar o tempo em que se vivia apaixonado. Até que faz força, mas não consegue se lembrar de como é. Nem escrever consegue mais. As palavras que antes transbordavam em seu jardim hoje mal conseguem escrever seu nome. E o café desce amargo apesar do creme e do açúcar. Não sabe se o expresso está mais forte do que o costume ou se seu paladar desacostumou com tudo aquilo que era doce. É uma pena que por ora só consiga sentir o sabor do amargo. Imagina o que mais quereria se por acaso tivesse tudo o que sempre quis. Que novos brinquedos iria almejar? Que novos espaços iria preencher? Os vazios-lugares não são mais os mesmos. Os espaços-quereres também não. A realidade lhe faz reverência com um sorriso de canto de boca. A ironia é a vingança mais perversa. Não quer mais o livro que namorou por tanto tempo. Anda com medo de ser assaltada na rua. Passou a ler jornal todos os dias. Tomou um porre de abalar as madrugadas. Enquanto isso, espera o namorado numa lanchonete ampla e fresca. Observa as poucas pessoas que compõem o cenário. Queria estar em outro lugar, mas a visão turva a impede de ver um palmo à sua frente. Se pelo menos soubesse o nome certo da sua rua. Porque no infinito fundo de seus dias, desconfia que descobrir onde se está já seria meio caminho andado para se chegar exatamente aonde se quer."

(.Espera. 29/12/2009. 17:48h.)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Remitência

Hoje a poesia me sorriu pela janela
Tímida e faceira
Me acenou de longe
Benfazeja e discreta
A luzir minhas rimas há tempos empoeiradas
Guardadas feito entulho
Embora fossem de prata

Hoje a poesia me trouxe
Um pedaço do olhar de volta
Aquele rebuliço
Aquela quentura no peito
Que transforma massa disforme
Em torta bonita e cheirosa na janela

Hoje a poesia me lembrou
Que pra fazer parte da turma
Basta lembrarmos que estamos vivos
E sermos entregues como todo bom poeta

Porque eu não escolho a poesia.
É ela que me sorteia.

Hoje a poesia me resgata
Ainda que sutilmente
Cautelosamente
E inevitavelmente
Desses dias sem frescor e glória que tem sido o meu país
Desde o dia em que de mim
Resolvi ir embora.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Freud explica, mas ainda não resolve.


No primeiro minuto da primeira hora do primeiro dia do último mês do ano, chego à conclusão momentânea de que me arrependi de ter entrado na terapia. Boa ou não, simplesmente me arrependi. Me arrependi de ter ido mexer onde não devia, já que supostamente em time que está ganhando, não se mexe. A questão é: será que vou começar agora um processo de mistificar o passado? Seria isso um retrocesso? Mais um boicote? Se antes eu me sentia manipulada por uma força estranha, agora me vejo não sendo mexida por nada. “Socorro alguém me dê um coração, que esse já não bate nem apanha.” Meu país virou um limbo onde nada acontece. Nada. Nem raiva eu sinto. Apenas um sentimento leve de que eu realmente não devia ter começado um caminho sem ter a garantia de que pelo menos o país permaneceria o mesmo. Mas não. Mudaram-se todas as regras. As leis. As estradas. A língua. E neste novo lugar é como se eu fosse estrangeira no mesmo lugar onde deveria ser o meu bairro. Mas eu não mais o reconheço como meu. Agora tudo é estranho pra mim. Antes o novo vinha do outro, daquilo que estava fora. Havia sempre o meu refúgio, por mais que a frase soasse cafona. Agora não. Agora o novo é aqui e eu não me sinto confortável dividindo este espaço nem comigo mesma. Voltar já não é mais possível. Deixou de ser uma opção faz tempo. O que resta agora é seguir adiante. Sempre adiante. E eu que só uso sapato confortável, hei de me acostumar com esse calo. O novo que nem sempre é bom, mas que hoje se torna necessário nesse outro país que eu optei por habitar.